Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2005

Maldito telefone...

   Que paciência!...
   Se não morro do coração, então é porque ele deve ser muito forte. Lá deve ir calejando com o tempo e com a vida que levo.


   Toca o telefone. Atendo como é costume. Do outro lado ouço o meu Pai. A voz perturbada, a respiração ofegante. Não está em casa, pois ouve-se ruído de fundo, tipo um café ou restaurante.
   __ Tá? Zé Victor? Oh filho, nem sabes o que nos aconteceu. __ Pronto, o coração caiu-me aos pés. Não fazia nem ideia do que poderia ser, e ele estava a engolir as palavras, parecendo receoso do que queria dizer. Continuou.
   __ Eu nem estou em casa, vê lá que tive de vir aqui ao restaurante para te telefonar. __ E não dizia o que raio se tinha passado. Eu é que já me estava a passar.
   __ Foi a Mãe? __ Pergunto. __ O que é que te aconteceu? Acalma-te! __ Já estava a pensar em tudo o que de mau podia ter acontecido. Mesmo assim custou-me a arrancar-lhe o que se estava a passar.
   __ Foi o telefone, vê lá, queria telefonar e ele não dá sinal! Tens de cá vir imediatamente! Vê lá se acontece qualquer coisa e precisamos de telefonar. Vens agora? __ Confesso que não me agradou a ideia, mesmo nada. Tinha coisas para fazer. Caramba! Eles têm um telemóvel cada um! Nem adiantou dizer-lhe isso, nem que por pouco não me tinha morto de susto.
   __ Tem que ser o mais rápido possível, mesmo antes do almoço! __ Lá consegui um adiamento com a promessa de que «vou logo que possa» e que não ia demorar muito.
   Preparo todo o tipo de coisas de que poderei precisar: multímetro, fichas para o que der e vier, chaves de parafusos, fio, cabo, o melhor é levar também um telefone suplementar, não vá aquele ter avariado. Vou comprar uma tomada, quem sabe se às vezes não será precisa.
   Chegado a casa deles, mal me deu tempo de ver a minha Mãe que está de cama.
   __ Anda lá à sala. Ainda bem que pudeste vir. (Não sei porquê, acabo por ir sempre!) Vê lá só o que nos aconteceu! __ Para mim era só um telefone que não funcionava, mas para ele parecia a ligação directa ao Presidente da República. Vejamos o que se passa. Levanto o auscultador. Bzzzzzzz! Ou por outras palavras, nada. Vejo a ligação à tomada. Parece boa.
   __ O telefone do quarto? Funciona? __ Pergunto. Não sabe. Vou lá ver. Belo. Tem o auscultador fora do descanso. Já está a funcionar... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 22:16
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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005

Uma boa ideia e uma má escrita.

   Que paciência!...
   Se uma doença nos ataca, ao menos que se consiga ver para poder tratar. Uma perna partida, engessa-se. Falta de vista? Usa-se óculos. Caldinhos quentes e cama para uma constipação. Que fazer quando o espírito voou para um lugar desconhecido e longínquo?


   Cada dia que passa, mais difíceis vão ficando as coisas. Acho que talvez a minha mulher tenha falta de uma actividade, alguma responsabilidade, algo que a faça sentir-se viva e necessária.. Tenho pensado em algumas coisas que ela pudesse fazer, algo que lhe ocupasse o tempo. A ideia veio de algo que ela gosta muito. Velas. Tem a casa cheia delas, amarelas, vermelhas, azuis. Tem uma predileção especial por estas, tendo uma sempre acesa. Se calhar é superstição, não me admiro nada, mas sente-se bem com elas. Normalmente, percorre as casas todas aqui à volta, à procura «daquela» vela mais bonita, mais interessante, mais fora do vulgar. Quando não é ela, até os meus filhos já participam, trazendo-lhe uma vela daqui e outra dali.
   Gostou imenso da ideia. Criar uma empresa para comercializar velas. Está já a pensar noutras coisas, velas aromáticas, incensos, óleos, entusiasmo, pelo menos inicial, não lhe falta. Fomos às Finanças abrir a actividade. A mim, cabe-me a gestão da imagem. Criar logotipos, impressos, página na internet. A ela, a execução dos contactos comerciais. Eu crio as bases de dados, tabelas, catálogos. Ela recolhe as informações, faz telefonemas. Agita-se. Vive.
   O primeiro passo é arranjar algo para vender. Não se pode fazer nada, sem produto. Há que encontrar fornecedores. Primeira fase: procurar fabricantes de velas em todos os suportes conhecidos, internet, listas telefónicas e comerciais, bases de dados. Segunda fase: contactar esses hipotéticos fornecedores. Crio uma mailing list e um e-mail de contacto. Crio um logotipo, registo um domínio na internet. As coisas parecem avançar. Ela procura fornecedores, telefona-lhes, recolhe moradas e outros dados. Até fico admirado como se está a safar tão bem com o computador. Há anos que não toca num, a última vez ainda se usava o Wordstar e o Lotus 123! Depois de uns empurrões, já mexe com o Firefox para a frente e para trás. Mete-lhe ainda muita confusão o copy/paste do Windows. Não faz mal, recorre-se a um bloco de notas e escreve-se à mão, mesmo.
   Passado um bocado aparece ao pé de mim com uma folha. Nota-se que há algo que não está bem, que a preocupa.
   __ Não consigo!... __ Mostra-me o papel, onde meia dúzia de moradas estão escritas, bem, mais ou menos. As primeiras ainda se conseguem ler, as outras é impossível. Mal consegue segurar a caneta. Abraço-a enquanto ela se encolhe... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 15:34
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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2005

Censura à liberdade?

   Que paciência!...
   Se queremos transmitir uma ideia, devemos promovê-la pelas formas correctas, e não usar espaços alheios para o fazer, sem consentimento, sem respeito, sem opinião. Há uma frase que me marcou após o 25 de Abril. A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro.


   Ainda miúdo ouvia histórias que se calavam à minha passagem, histórias do meu Avô que nunca conheci senão através de uma pedra tumular e uma fotografia, mas dele fui sabendo alguma coisa. À porta da propriedade tinha uma aldraba e homem que lhe conseguisse deitar a mão já não seria mais perseguido. Deixado em paz... porquê e de quê? Imaginava o meu Avô assim como um rei que protegia as pessoas dos bandidos. Só muito mais tarde entendi que os bandidos eram normalmente polícias e guardas, e que as minhas pessoas desprotegidas eram normalmente consideradas bandidos. Estranho. O meu Avô ajudava bandidos? Criminosos? Então era como eles. Porque não o prendiam? O silêncio respondia-me quase sempre.
   __ O teu Avô era uma pessoa de bem. Ajudava toda a gente, mesmo os polícias. Todos precisavam dele. Morreu novo, demasiado novo...


   __ Hoje vai-se passar qualquer coisa. Vem comigo à Baixa. __ Disse-me um dia a minha Mãe.
   __ Passar o quê, Mamã. É aquilo que ouviste na rádio estrangeira ontem? Isso não é só lá fora? __ Ouvi de imediato uma repreensão. Nunca fales disso a ninguém, nunca! No Rossio, algumas pessoas de aspecto estranho. Pareciam pobres, mas daqueles que só se vêm em filmes. Um colocava um pano vermelho em frente ao Teatro.
   __ É para quê, aquilo, Mamã? __ perguntei eu. Puxou-me pela rua do Bráz & Braz.
   __ Anda embora depressa. __ Corria, tentando puxar-me. Fomos ultrapassados por várias pessoas que também corriam. Um pouco à frente, um homem fechava as grades da porta de uma loja. Gritou pra nós abanando a mão.
   __ Aqui, rápido! __ Atrás de nós ouvi alguns gritos, mas de dor. O tropel assemelhava-se às largadas de touros em Vila Franca. Cavalos? Na Baixa? A minha Mãe é puxada para dentro da loja enquanto eu me viro para ver o que se passava. Umas mãos agarram-me a tempo. O cavalo passou tão perto que até lhe senti o cheiro. A bota de cano alto deixou-me um risco preto na camisola. O vergão no peito apareceria no dia seguinte. No chão da rua alguns homens caídos. Outros afastavam-se ajudando-se como podiam. Alguns com sangue na roupa. No fim da rua uma carrinha fechada.
   __ Deixem-se estar aqui. Ninguém sai! __ Alguém dentro da loja disse isto ao mesmo tempo que um homem foi atirado de encontro às grades da rua. Dois homens de fato prendiam-lhe as mãos atrás das costas, enquanto lhe batiam na cabeça. Olhava para dentro da loja, para onde estávamos em segurança. O bigode cheio de sangue. No outro lado da rua um polícia via sem fazer nada. Era dia 1 de Maio.


   Reunião na sala de rádio do Liceu Gil Vicente. A ideia era recuperar a emissora, calada havia já muitos anos. A porta abre-se e vemos o Senhor Marciano, o nosso contínuo, com uma cara que não era habitual. Entram dois homens que começam a vasculhar tudo. Interesse redobrado nuns papeis que registavam todas as músicas que passávamos nas experiências. Ele diz apenas «__ Portem-se bem, meninos.» Algo que às vezes nos dizia quando os professores se atrasavam. Ninguém disse nada. O Senhor Marciano não apareceu no dia seguinte. A seccção de rádio nunca mais funcionou.


   __ Hoje vai dar molho. Queres vir também? __ Disse o João Rato. Ia ser em frente ao Técnico. Estava lá a malta toda. Ficámos ligeiramente de lado. A polícia estava a fechar a rua que ia para o Chile. Uma garrafa foi bater no escudo de um deles. Quase todos tinham cães. Ninguém se mexia. Voaram mais duas garrafas. De um momento para o outro a confusão estava lançada. Polícias à bastonada, cães a ladrar, estudantes a correr. O João foge pela Alameda abaixo quando a carga se está a aproximar de nós. Eu corro em direcção à Praça de Londres, mas o cão é mais rápido e não tarda a apanhar-me o blusão, que rasga. A motorizada pára à minha frente com um chiar de pneus. É o Tete. Salto para a Zundapp e nunca me senti tão feliz de andar naquilo. Safei-me com um blusão rasgado. Outros não tiveram a mesma sorte.


   Toca o telefone. «É dos Correios? Desculpe que é engano.» Eles andam aí. Tenho o sótão transformado numa estação de rádio. A passo em frente está bem disfarçada de estendal da roupa, mas o coração bate-me depressa. Um carro passa na rua, devagar, demasiado devagar. Eles sabem que é por ali, mas não podem bater à porta de todas estas famílias bem. Qualquer dia sou apanhado, mas continuo a transmitir os últimos LP's que me chegaram de Londres, enquanto ando com a malta do Grupo Experimental de Teatro. Sabia que eles viam tudo, anotavam tudo. Só se podia dizer o que eles deixavam. Voltam a passar. Hoje a emissão está terminada. Consigo ver a cara de um deles pelos vidros.


   Nunca mais pensei em censura até aos dias de hoje. Tive até uma certa relutância em dizer que poderia censurar links que me enviassem para registo neste Blog, mas acho que há certas coisas que não devem ser publicitadas, racismo, pornografia, intolerância religiosa. Até que me começaram a comentar os artigos com dissertações sobre as próximas eleições. Sem nada a dizer do artigo, sem comentário real, nada. Apenas dizer isto e aquilo, sobre este e aquele, escondidos atrás de um falso e-mail. A atitude é errada, tanto na forma, como no conteúdo. Pouco interessa que eu seja a favor ou contra as ideologias apresentadas. Provavelmente surpreenderia imenso os seus autores, se soubessem quais são realmente as minhas convicções políticas. Este é um Blog que pretende continuar com o rumo traçado no dia do seu lançamento, sem se afastar daquilo que é, sem ser usado para outros fins que não o da divulgação dos casos de dia-a-dia e da conversa sã dos leitores que realmente os comentam. Todos os outros, infelizmente, serão censurados... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 22:10
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2005

O meu Pai e os medicamentos

   Que paciência!...
   Se há pessoas esquisitas com os medicamentos que tomam, uma delas é o meu Pai. Não sei porque é que ele não foi para médico. Ele é que sabe quais são os que lhe fazem bem e os que lhe fazem mal. E não é só com ele, é também com as outras pessoas. Se for a um médico que lhe receite qualquer coisa que ele não goste, vai a mais um e outro, se for preciso até que lhe dêem aquilo que ele julga ser bom. Se conhece alguém que está a tomar algo que le já tomou e não gostou, não descansa enquanto não convence a abandonar essa prescrição e recomeçar outra.


   Fui com o meu Pai ao tratamento. Tinha consulta. Após alguma espera fomos chamados. A médica mal olhou para ele, limitando-se a analisar a ficha.
   __ Vai continuar a colocar o Biafin que lhe receitei da última vez. Ainda tem? __ Foram as palavras erradas. Enfim, veja-se o seguimento.
   __ A Sra. Doutora desculpe, mas eu comprei esse creme e não me dei nada bem com ele. Não será melhor o Bepanthene? __ Já está. A médica engoliu em seco e olhou para mim.
   __ Bem, isto de cremes para a pele... é como um tiro no escuro, as pessoas é que sentem o efeito, e devem ser elas a decidir qual o melhor, temos de ir tentando. Passou então a receita com o Bepanthene, soro fisiológico e óleo de amêndoas doces. Vamos lá comprar isso.
   __ Eu tenho de ir à farmácia do Hospital Militar. Fica ali já. Sabes onde é, não sabes? __ Eu sabia que estava quase em Benfica. O Hospital Militar fica para a Estrela. São cinco horas. O trânsito deve estar infernal e «só» tenho de atravessar metade da cidade, passando por todos os engarrafamentos da zona do Marquês e do túnel, e sei lá que mais. Tem mesmo de ser lá? Tem pois. Para que é que perguntei? Lisboa tem uma centena de farmácias, mas só aquela é que tem o Sr. Eufrásio, ou lá como se chama, que percebe muito destas coisas. Ainda ia confrontar o creme, de certeza.
   Não há um único lugar para estacionar. Tenho de deixar o carro mesmo junto a uma placa que proíbe até a paragem, mas como já lá estão mais meia dúzia, à boa moda do português, vamos lá arriscar.
   Afinal o dito conhecedor não se pronunciou sobre o creme, como ele queria. Acabou por não o comprar. Ia ver melhor! Mas valeu a pena vir aqui, nem que seja pelo desconto que me fazem. Desconto? Olho o recibo. Desasseis cêntimos num tubo de soro fisiológico! Atravessei metade de Lisboa em plena hora de ponta para poupar desasseis cêntimos! Tenho de fazer o mesmo caminho para voltar à Alameda... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 22:45
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