Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2005

Censura à liberdade?

   Que paciência!...
   Se queremos transmitir uma ideia, devemos promovê-la pelas formas correctas, e não usar espaços alheios para o fazer, sem consentimento, sem respeito, sem opinião. Há uma frase que me marcou após o 25 de Abril. A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro.


   Ainda miúdo ouvia histórias que se calavam à minha passagem, histórias do meu Avô que nunca conheci senão através de uma pedra tumular e uma fotografia, mas dele fui sabendo alguma coisa. À porta da propriedade tinha uma aldraba e homem que lhe conseguisse deitar a mão já não seria mais perseguido. Deixado em paz... porquê e de quê? Imaginava o meu Avô assim como um rei que protegia as pessoas dos bandidos. Só muito mais tarde entendi que os bandidos eram normalmente polícias e guardas, e que as minhas pessoas desprotegidas eram normalmente consideradas bandidos. Estranho. O meu Avô ajudava bandidos? Criminosos? Então era como eles. Porque não o prendiam? O silêncio respondia-me quase sempre.
   __ O teu Avô era uma pessoa de bem. Ajudava toda a gente, mesmo os polícias. Todos precisavam dele. Morreu novo, demasiado novo...


   __ Hoje vai-se passar qualquer coisa. Vem comigo à Baixa. __ Disse-me um dia a minha Mãe.
   __ Passar o quê, Mamã. É aquilo que ouviste na rádio estrangeira ontem? Isso não é só lá fora? __ Ouvi de imediato uma repreensão. Nunca fales disso a ninguém, nunca! No Rossio, algumas pessoas de aspecto estranho. Pareciam pobres, mas daqueles que só se vêm em filmes. Um colocava um pano vermelho em frente ao Teatro.
   __ É para quê, aquilo, Mamã? __ perguntei eu. Puxou-me pela rua do Bráz & Braz.
   __ Anda embora depressa. __ Corria, tentando puxar-me. Fomos ultrapassados por várias pessoas que também corriam. Um pouco à frente, um homem fechava as grades da porta de uma loja. Gritou pra nós abanando a mão.
   __ Aqui, rápido! __ Atrás de nós ouvi alguns gritos, mas de dor. O tropel assemelhava-se às largadas de touros em Vila Franca. Cavalos? Na Baixa? A minha Mãe é puxada para dentro da loja enquanto eu me viro para ver o que se passava. Umas mãos agarram-me a tempo. O cavalo passou tão perto que até lhe senti o cheiro. A bota de cano alto deixou-me um risco preto na camisola. O vergão no peito apareceria no dia seguinte. No chão da rua alguns homens caídos. Outros afastavam-se ajudando-se como podiam. Alguns com sangue na roupa. No fim da rua uma carrinha fechada.
   __ Deixem-se estar aqui. Ninguém sai! __ Alguém dentro da loja disse isto ao mesmo tempo que um homem foi atirado de encontro às grades da rua. Dois homens de fato prendiam-lhe as mãos atrás das costas, enquanto lhe batiam na cabeça. Olhava para dentro da loja, para onde estávamos em segurança. O bigode cheio de sangue. No outro lado da rua um polícia via sem fazer nada. Era dia 1 de Maio.


   Reunião na sala de rádio do Liceu Gil Vicente. A ideia era recuperar a emissora, calada havia já muitos anos. A porta abre-se e vemos o Senhor Marciano, o nosso contínuo, com uma cara que não era habitual. Entram dois homens que começam a vasculhar tudo. Interesse redobrado nuns papeis que registavam todas as músicas que passávamos nas experiências. Ele diz apenas «__ Portem-se bem, meninos.» Algo que às vezes nos dizia quando os professores se atrasavam. Ninguém disse nada. O Senhor Marciano não apareceu no dia seguinte. A seccção de rádio nunca mais funcionou.


   __ Hoje vai dar molho. Queres vir também? __ Disse o João Rato. Ia ser em frente ao Técnico. Estava lá a malta toda. Ficámos ligeiramente de lado. A polícia estava a fechar a rua que ia para o Chile. Uma garrafa foi bater no escudo de um deles. Quase todos tinham cães. Ninguém se mexia. Voaram mais duas garrafas. De um momento para o outro a confusão estava lançada. Polícias à bastonada, cães a ladrar, estudantes a correr. O João foge pela Alameda abaixo quando a carga se está a aproximar de nós. Eu corro em direcção à Praça de Londres, mas o cão é mais rápido e não tarda a apanhar-me o blusão, que rasga. A motorizada pára à minha frente com um chiar de pneus. É o Tete. Salto para a Zundapp e nunca me senti tão feliz de andar naquilo. Safei-me com um blusão rasgado. Outros não tiveram a mesma sorte.


   Toca o telefone. «É dos Correios? Desculpe que é engano.» Eles andam aí. Tenho o sótão transformado numa estação de rádio. A passo em frente está bem disfarçada de estendal da roupa, mas o coração bate-me depressa. Um carro passa na rua, devagar, demasiado devagar. Eles sabem que é por ali, mas não podem bater à porta de todas estas famílias bem. Qualquer dia sou apanhado, mas continuo a transmitir os últimos LP's que me chegaram de Londres, enquanto ando com a malta do Grupo Experimental de Teatro. Sabia que eles viam tudo, anotavam tudo. Só se podia dizer o que eles deixavam. Voltam a passar. Hoje a emissão está terminada. Consigo ver a cara de um deles pelos vidros.


   Nunca mais pensei em censura até aos dias de hoje. Tive até uma certa relutância em dizer que poderia censurar links que me enviassem para registo neste Blog, mas acho que há certas coisas que não devem ser publicitadas, racismo, pornografia, intolerância religiosa. Até que me começaram a comentar os artigos com dissertações sobre as próximas eleições. Sem nada a dizer do artigo, sem comentário real, nada. Apenas dizer isto e aquilo, sobre este e aquele, escondidos atrás de um falso e-mail. A atitude é errada, tanto na forma, como no conteúdo. Pouco interessa que eu seja a favor ou contra as ideologias apresentadas. Provavelmente surpreenderia imenso os seus autores, se soubessem quais são realmente as minhas convicções políticas. Este é um Blog que pretende continuar com o rumo traçado no dia do seu lançamento, sem se afastar daquilo que é, sem ser usado para outros fins que não o da divulgação dos casos de dia-a-dia e da conversa sã dos leitores que realmente os comentam. Todos os outros, infelizmente, serão censurados... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 22:10
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De docerebelde a 5 de Fevereiro de 2005 às 14:53
Hoje não tive paciência para ler o texto até ao fim.Sim, paciencia, é realemente preciso uma boa dose de paciencia para ler alguns dos teus textos.Decidi deixar-te a passear na baixa com a tua mãe, não sei se entretanto demoraste ou não.....não tive mais paciência.....rs... Agradável fim de semana, Bjs


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.posts recentes

. Filho pródigo...

. Telefonema a meio da noit...

. ops

. Iconomaker 3.0

. Está a andar...

. Outra resolução

. Aguentei a segunda...

. Falhou logo à primeira...

. Foi há quase um ano...

. Quase... quase...

.arquivos

. Março 2007

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Maio 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds