Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2005

Noite de fados.

   Que paciência!...
   Se uma coisa não acontece logo, pode acabar por se revelar.
   Desafiaram-me a ir aos fados. Bateu-me à porta a saudade dos tempos em que corri algumas tascas e barracões onde vozes anónimas lhe davam vida, acompanhadas do gemer de uma viola ou do trinar de uma guitarra. Fado vadio, desgarradas em que por vezes participei, canção de Coimbra, uma vozinha cá dentro dizia para ir, mas a disposição não era muita. Lembrei-me então da fadista a quem perguntaram se sabia o que era o fado e ela mentiu, respondendo que não, para depois terminar assim:
__ ...Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado. __ Afinal a minha disposição estava a condizer.


   Ainda estava a atacar uma boa posta de bacalhau, embora as três batatas assadas com casca e de aspecto meio murcho já deixassem mais a desejar, quando as luzes baixaram. Do fundo de mim despertou aquele sentimento próprio de quem já ouviu muitas vezes «__ Silêncio, que se vai cantar o fado!» Se a minha espectativa era grande, a desilusão, foi maior. A fadista esganiçou e atropelou três fados, antes de se ir embora. Nem bom dia, nem boa tarde. A voz faltou-lhe, o compasso também, quando cantava com mais voz do que era precisa para tão restrita audiência. Desagradou profundamente. Comentei que nem teve uma palavra para o público, ou para os músicos. Disseram-me que isso já não se usa. A casa é para os turistas japoneses e espanhóis e não para a arte. A noite melhorou quando o guitarrista também cantou três bonitos fados enquanto dedilhava as notas da canção, mas não me encheu o coração. O baixo, também só nesse momento pareceu acordar, começando a soar como deveria ter tocado logo de princípio. A surpresa foi a Anita Guerreiro. Pena que ao meu lado só a identificassem com os Batanetes, mas a voz também não a ajudou. Esforçou-se durante três fados, mas teve de recolher. Tive pena. Não estava mesmo nos meus dias, ou noites.
   Vejo chegar a Lenita Gentil. Afinal a casa é dela, mas ouço-a com desconfiança. Aos poucos vai envolvendo o público, arrebanhando-o, quase o conseguiu usar como quis. Afinal, ainda se cantava o fado à boa maneira que eu conhecia. Cumprimentou o público, apresentou os músicos, fez o espectáculo. Com o último fado veio a tristeza do fim. Também já eram horas de se pensar em ir embora, relembrando a excelente actuação do guitarrista Fernando Silva que dedilhou as cordas da guitarra como se disso dependesse a sua vida. Foram momentos de rara beleza. Mais uns cafés, mais umas conversas e as luzes baixam novamente. Ao meu lado alguém diz que nos devíamos ter ido embora mais cedo, alusão directa à primeira interpretação da noite. Há quem diga para nos irmos mesmo à frente dela. Ainda bem que não o fizemos. O esforço da fadista também não merecia a desfeita. Agora cumprimentou as poucas pessoas ainda presentes. Uma melhoria. Atacou um fado com vontade. Sorriu e envolveu-nos. Mereceu os primeiros aplausos e colou-nos às cadeiras para mais duas interpretações que não raiaram o excepcional, mas foram francamente melhores. Agora sim, podemos dizer que a noite foi salva... É preciso paciência.


Não preciso obrigatoriamente de ser um especialista em fado ou de saber distinguir a diferença entre uma viola e a guitarra portuguesa, para poder comentar o que gostei ou não de ouvir na Casa de Fados «O Faia», na Rua da Barroca, 54/56 em Lisboa. Página Web e e-mail
Os intérpretes desta noite foram, segundo me informaram por telefone, a Débora Rodrigues (1ª e 5ª actuação), o Miguel Ramos, a Anita Guerreiro e a Lenita Gentil, acompanhadas pelos guitarristas de Fernando Silva, com o próprio na guitarra portuguesa, Miguel Ramos à viola e José Vilela na viola-baixo.
Numa classificação de 1 (fraco) a 5 (excepcional) a noite não chegou a 4

publicado por vkthor às 23:58
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2 comentários:
De Plantacarnivora a 28 de Fevereiro de 2005 às 19:42
Uma noite de fados é especial, não queria fazer isso todos os fins de semana, mas que gosto, gosto. Lembro-me umas noites perto do Porto, divinal jantar e ouvir vários fadistas que iam e vinham, divinal, vale a pena mesmo divulgar. Não é preciso paciência para ir a uma casa de fados, ou será?? Talvez para os amantes de outro tipo de música, mas sendo português e típico, vale a pena ir ouvir, numa casa de fados.


De docerebelde a 27 de Fevereiro de 2005 às 13:42
Esqueceste por instantes a responsabilidade de um homem casado e recuaste no tempo ...rtecordaste o passado e viveste á "grande essa inesquecível noite.Repete-a...repete-a que a vida é curta e momentos agradáveis devemos repeti-los. Bjs


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