Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2005

Noite de fados.

   Que paciência!...
   Se uma coisa não acontece logo, pode acabar por se revelar.
   Desafiaram-me a ir aos fados. Bateu-me à porta a saudade dos tempos em que corri algumas tascas e barracões onde vozes anónimas lhe davam vida, acompanhadas do gemer de uma viola ou do trinar de uma guitarra. Fado vadio, desgarradas em que por vezes participei, canção de Coimbra, uma vozinha cá dentro dizia para ir, mas a disposição não era muita. Lembrei-me então da fadista a quem perguntaram se sabia o que era o fado e ela mentiu, respondendo que não, para depois terminar assim:
__ ...Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado. __ Afinal a minha disposição estava a condizer.


   Ainda estava a atacar uma boa posta de bacalhau, embora as três batatas assadas com casca e de aspecto meio murcho já deixassem mais a desejar, quando as luzes baixaram. Do fundo de mim despertou aquele sentimento próprio de quem já ouviu muitas vezes «__ Silêncio, que se vai cantar o fado!» Se a minha espectativa era grande, a desilusão, foi maior. A fadista esganiçou e atropelou três fados, antes de se ir embora. Nem bom dia, nem boa tarde. A voz faltou-lhe, o compasso também, quando cantava com mais voz do que era precisa para tão restrita audiência. Desagradou profundamente. Comentei que nem teve uma palavra para o público, ou para os músicos. Disseram-me que isso já não se usa. A casa é para os turistas japoneses e espanhóis e não para a arte. A noite melhorou quando o guitarrista também cantou três bonitos fados enquanto dedilhava as notas da canção, mas não me encheu o coração. O baixo, também só nesse momento pareceu acordar, começando a soar como deveria ter tocado logo de princípio. A surpresa foi a Anita Guerreiro. Pena que ao meu lado só a identificassem com os Batanetes, mas a voz também não a ajudou. Esforçou-se durante três fados, mas teve de recolher. Tive pena. Não estava mesmo nos meus dias, ou noites.
   Vejo chegar a Lenita Gentil. Afinal a casa é dela, mas ouço-a com desconfiança. Aos poucos vai envolvendo o público, arrebanhando-o, quase o conseguiu usar como quis. Afinal, ainda se cantava o fado à boa maneira que eu conhecia. Cumprimentou o público, apresentou os músicos, fez o espectáculo. Com o último fado veio a tristeza do fim. Também já eram horas de se pensar em ir embora, relembrando a excelente actuação do guitarrista Fernando Silva que dedilhou as cordas da guitarra como se disso dependesse a sua vida. Foram momentos de rara beleza. Mais uns cafés, mais umas conversas e as luzes baixam novamente. Ao meu lado alguém diz que nos devíamos ter ido embora mais cedo, alusão directa à primeira interpretação da noite. Há quem diga para nos irmos mesmo à frente dela. Ainda bem que não o fizemos. O esforço da fadista também não merecia a desfeita. Agora cumprimentou as poucas pessoas ainda presentes. Uma melhoria. Atacou um fado com vontade. Sorriu e envolveu-nos. Mereceu os primeiros aplausos e colou-nos às cadeiras para mais duas interpretações que não raiaram o excepcional, mas foram francamente melhores. Agora sim, podemos dizer que a noite foi salva... É preciso paciência.


Não preciso obrigatoriamente de ser um especialista em fado ou de saber distinguir a diferença entre uma viola e a guitarra portuguesa, para poder comentar o que gostei ou não de ouvir na Casa de Fados «O Faia», na Rua da Barroca, 54/56 em Lisboa. Página Web e e-mail
Os intérpretes desta noite foram, segundo me informaram por telefone, a Débora Rodrigues (1ª e 5ª actuação), o Miguel Ramos, a Anita Guerreiro e a Lenita Gentil, acompanhadas pelos guitarristas de Fernando Silva, com o próprio na guitarra portuguesa, Miguel Ramos à viola e José Vilela na viola-baixo.
Numa classificação de 1 (fraco) a 5 (excepcional) a noite não chegou a 4

publicado por vkthor às 23:58
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2005

Os papeis do meu Pai.

   Que paciência!...
   Se estamos com um monte de coisas para fazer, é certo que vão aparecer mais ainda.


   Não há dúvida que o dia começou em grande forma. A minha mulher já está metida na cama. Nem sei para que é que se levanta. Tomou o pequeno-almoço comigo e zás, quando dou conta já está enfiada na cama. Ainda tentei que fosse comigo ao banco, mas não deu em nada.
   Quando cheguei a casa, a minha Mãe tinha telefonado. Estou às voltas com os papeis do IRS, contas e continhas. Para aborrecer mais ainda o site do banco está em baixo e não me deixa consultar os últimos movimentos. Queria acertar esta conta. Há umas porcarias de portagens que estão a dar-me cabo da paciência. Se fossem só elas! Ligo para a minha Mãe, enquanto vou equilibrando as contas entre o My Money e o último extrato do BES. Pica aqui, pica ali, a minha Mãe atende.
   __ Então onde é que foste? __ Parece que eu estou eternamente em férias e devia certamente estar na cama sem fazer nada. Lá lhe digo que fui a banco e que estou a fazer a porcaria do IRS, e que estou pelos cabelos com a vida que levo, mas não adianta. __ Ainda bem que falas do IRS, porque o teu Pai queria-te fazer uma pergunta também sobre isso. __ Ele? Então o técnico de contas é ele e tem perguntas para me fazer? Não acredito! Vamos lá a ver o que ele precisa.
   __ Olá Zé Victor. Lembras-te daqueles papeis que um dia levei para tua casa para pôr em ordem? __ Lembrar, lembrava-me. Encheu-me a secretára de papeis dele, misturou com os meus, levou metade e deixou cá outra metade. De certeza. __ Eu agora não os encontro. Se viesses cá procurá-los, era mais rápido.
   Assim. Sem mais nem menos. Tem pelo menos trezentas pastas cheias de papeis de todas as formas e feitios, espalhadas por todas as divisões da casa, e em todos os lugares, mesmo os menos prováveis, como por baixo de sofás, atrás de moveis, metidos em caixas e caixotes, desde a sala ao quarto, passando pela cozinha, casa de banho, marquise. Sei lá onde é que os pode ter metido! Lá vem a chantagem.
   __ É que já estou velho, não consigo procurar, não me digas que não podes dispor de um bocadinho para ajudar o teu Pai. Vinhas cá, até almoçavas aqui, depois podíamos sair um pouco, a tua Mãe já está com saudades tuas. Se calhar precisa de ir ao supermercado, nós já não podemos. Não vale a pena dizer mais. Amanhã vou... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 10:12
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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2005

Vou para casa da minha mãe

   Que paciência!...
   Se fosse possível resolver os problemas da vida com pequenas birras, ou magoando as únicas pessoas que nos podem ajudar...


   Não apareceu para o pequeno-almoço. Já estava sentado a trabalhar quando chegou ao pé de mim.
   __ Não te quero dar mais problemas. Vou para casa da minha mãe. __ Assim, sem mais nem menos. Se fico admirado? Claro que sim. Elas não se dão! Podem ficar horas ao telefone a falar não sei de quê, mas daí a uma maior aproximação... costumo dizer que o periodo de garantia expirou e a fábrica já não aceita devoluções. Palavra que já pensei nisso várias vezes, mas, realmente, os namoros deviam ter uma garantia vitalícia, e não acabar no dia do casamento. Sorte para os pais, senão já a tinha devolvido por defeitos de fabrico.
   Continuando, só respondi que ela tinha de se arranjar, que eu não a levava a lado nenhum. Isto está a ficar mesmo feio. Quer-me magoar ainda mais.
   __ Mas levo os meninos comigo. __ No íntimo sorrio. Não posso nem acreditar que ela esteja a falar a sério! Fazê-los mudar de escola a meio do ano, não são propriamente um gato que se meta numa cesta e se leve para qualquer lado onde haja um recipiente com areia para as necessidades. Já estou a ficar sem vontade até de discutir.
   __ Isso é contigo... e com eles. __ Sai da sala e eu continuo com o meu trabalho. Quer dizer, fico sentado em frente ao computador. A minha produção estes dias tem sido nula.
   Passado um bocado volta.
   __Deixas-me ficar aqui? Eu não como, não gasto luz nem água, não te faço despesa nenhuma, só quero ficar aqui... Não tenho para onde ir. __ Confesso que me deu pena. Também tenho pena que um casamento não possa ser sustentado pela pena ou compaixão... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 10:19
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Sábado, 12 de Fevereiro de 2005

É obra!


Acho que só dá para dizer uma coisa. Obrigado pela vossa paciência.
Quando nos finais de Dezembro coloquei este blog no ar, nunca me passou pela cabeça que houvesse muitas pessoas a pararem por aqui. Pensava que este seria o meu cantinho privado de desabafos. Enganei-me. Todos vocês têm sido extraordinários, ou mais ainda.
Para todos, mais uma vez, obrigado pela paciência, apoio, comentários, ou simples leitura, parando por aqui um dia após outro.

Vkthor
publicado por vkthor às 13:57
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Cinquenta euros numa corrida.

   Que paciência!...
   Se bem me lembro (esta frase era do saudoso Vitorino Nemésio) sempre houve assaltos, e os ladrões são tão antigos como a história. Em alguns povos, roubar era sinónimo de posição social, noutros apenas substituído por palavras mais grandiosas, como conquistar ou expandir. Para mim, em qualquer dos casos é uma forma degradante da sociedade.


   Fui com o meu Pai à consulta de Dermatologia. Aquilo está mesmo com mau aspecto. A pele à volta da zona do nariz está toda vermelha, inflamada, com algumas crostas amarelas. Nas narinas, parece sangue coagulado, impedindo-lhe a respiração normal. Para quem sofre de asma e de bronquite crónica, não é muito bom.
   Afinal parece que as crostas amarelas são mesmo causa do tratamento que fez, e hão-de cair normalmente. As outras já não são bem assim, são fruto de uma infecção que agora só pode curar com antibiótico. Palavra errada que de imediato gerou acesa discussão com a médica. Tinha mesmo de o tomar, arrancou-lhe a promessa no meio de alguns resmungos, pediu-me para me ir certificando que ele cumpria o tratamento. Fácil de dizer, mas impossível de cumprir. Eu já conheço o meu Pai. Se ele não quiser tomar os medicamentos não toma mesmo, e depois vai saltando de médico em médico. É complicado. Vou ter de apelar para a minha Mãe e ver o que ela consegue fazer. Eles que se entendam. A minha parte está cumprida.
   Quase inacreditável. Consigo nova consulta de Dermatologia para o dia 16 e Otorrino para 17. Devem estar mesmo com vontade de ver este caso terminado. À saída, pequena guerra com o meu Pai. Quer ir à procura de um sítio para tirar fotocópias à receita! Para seguir à risca as indicações da médica, pois os farmacêuticos enganam-se a escrever a forma de tomar os medicamentos nas caixas e é por isso que ele não se cura. Quem o ouvir até é capaz de acreditar. Vamos lá mas é procurar uma farmácia. Há uma perto do Chile. Fica no caminho pra casa.
   Já dei duas voltas às redondezas, mas não há onde parar o carro. Fico um pouco à frente da farmácia, em segunda fila. Mesmo ao lado de um carro bloqueado. Mau presságio. O meu Pai vai comprar os medicamentos enquanto espero dentro do carro. Deve ser só um bocadinho, mesmo assim agarro num livro e vou lendo. Um capítulo, outro, talvez a farmácia esteja cheia de gente. É época de gripes. Não posso sair e deixar o carro ali. Esperemos. Mais uns capítulos até que ele chega ao pé de mim. Cara de caso. Já me vou habituando.
   __ Ai, filho, nem sabes o que me aconteceu! __ Aguardo curioso. __ Tinha o dinheiro para pagar os medicamentos... __ E não dizia mais nada. Pensei que o tivesse perdido. Se fosse preciso eu tinha ali a carteira.
   __ Não, tinha-o na mão. Cinquenta euros! Ia pagar os medicamentos ao homem.
   Resumindo, tirou o dinheiro das carteira para pagar a conta, e um indivíduo que estava ao lado arrancou-lhe a nota da mão e toca a fugir porta fora. Toda a gente na farmácia ficou a olhar sem perceber nada. Até o meu Pai demorou a entender o alvoroço... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 10:37
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2005

Uma, duas e hão-de ser três!

   Que paciência!...
   Se há alguém que vive a pensar em médicos e consultas, é agora a minha mulher. Dou-lhe desconto. Ela anda desesperada, e eu para lá caminho.


   Ontem a minha miúda mais nova pediu-me para hoje ir passear com os colegas para o Fórum. O costume, almoçar lá, ver as lojas todas, experimentar não sei quantas peças de roupa, gastar dinheiro. Está a preparar-se para a dura tarefa de ser mulher. Tudo bem, sou um pai quadrado e cota, mas como até hoje ela não me deu desgostos de maior, vai merecendo a minha confiança e condescendência. Pior que ela, só mesmo a mãe.
   __ Podias levar-me ao Hospital. Ia tentar ser vista numa consulta de urgência.
   Confesso que fiquei logo de nariz no ar, mas compreendo que ela se está a sentir mal e que quer tentar tudo. Levo a miúda ao Fórum, e o Hospital não fica tão longe assim, mas pelo sim, pelo não, vou acompanhá-la à triagem.
   Primeira guerra: encontrar lugar para estacionar. Aquilo está cheio! Acabo deixando o carro muito mal estacionado entre outros dois, meio rabo de fora, mas pode-se passar... com cuidadinho.
   Chegamos à triagem. A fila de pessoas à espera para ser atendida, dá a volta ao átrio, misturando-se com as macas. Conto as pessoas que estão à nossa frente. Vinte e três, sem contar os bombeiros, que andam sempre de um lado para o outro. A minha mulher desistiu. Diz que não se aguenta e não consegue ficar ali à espera. Voltamos para casa.
   Horas de ir buscar a garota. Gosto mesmo dela. Disse e cumpriu. Já lá está à minha espera. No caminho, a minha mulher lembrou-se outra vez.
   __ Vamos passar pelo Hospital outra vez? Pode ser que eu agora consiga. Penso no meu trabalho a acumular-se, mas lá vou eu. Pelo menos agora vou ter companhia. Engano. Levou a miúda com ela, enquanto procuro um lugar para parar o carro e esperar. Já desisti de trabalhar hoje. A minha miúda aparece.
   __ Paieee! A Mãe pediu para ires ter com ela, para ir à consulta. __ Tretas. Foi para pagar os seis euros e noventa da inscrição. Paga! O mês passado foi um quarto do meu ordenado em despesas de saúde. Este mês ainda nem recebi. Isto está bonito. Lá fomos ao terceiro piso ouvir o especialista. Claro que não nos ia deixar entrar. Sala de espera, como um chocolate com a minha filha. A minha mulher aparece quase logo. Vai ter de esperar até 3 de Março para ser atendida... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 20:49
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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2005

Mal distribuido.

   Que paciência!...
   Se um dia casamos com alguém, é porque realmente gostamos dessa pessoa, e queremos fazer o resto da nossa vida com ela. Sei que o casamento é para o bem e para o mal. Mas há alturas em que pensamos seriamente que a distribuição ficou mal feita.


   Não sei porque é que às vezes ainda tento, ainda me esforço. Devia convencer-me de já não vale a pena, mas há sempre uma réstia de esperança. Às vezes penso que só eu é que ainda a vejo, ou pelo menos desejo vê-la. A minha mulher está cada vez pior, não só física como mentalmente. Bem, acredito que uma leve à outra. E vice-versa. Para não estar sempre sozinha metida no quarto, comecei a trazê-la aqui para a sala, que funciona também como o meu escritório. Tenho um sofá onde ela se pode deitar. Pelo menos tem companhia, embora passe a maior parte do tempo a dormir. Quanto a isso já não sei o que fazer. Também, a tomar tantos comprimidos, como ela toma, eu acho que não aguentava. Aqui há dias contei-os. Eram 23! E isto, os que dei conta, porque sei que às escondidas toma mais.
   Estou a trabalhar no computador quando a sinto mexer-se no sofá. Destapou-se. Sei que tem sempre muito frio e fui lá tapá-la de novo com o meu saco-cama, que está dobrado em dois. Nunca entendi como é possível ela ainda ter frio. Eu, lá dentro, asso! No verão tenho de usar um mais fresco. Este é só mesmo para o Inverno. Passado um bocado mexeu-se outra vez. Não sei se foi boa ideia trazê-la para o pé de mim. Não presto atenção ao trabalho e estou sempre a ver o que lhe está a acontecer. Pronto, agora caiu para o chão. Lá vou eu outra vez. Tento levantá-la, mas pesa como chumbo. Também, onde quer que a agarre só apanho roupas, e ela não está a ajudar nada. Casaco de lã, outro casaco mais fino, pullover, camisola, mais uma camisola interior, fora pelo menos 40 quilos de banhas que complicam com os meus braços quando a tento levantar. Parece uma bola, ou melhor um daqueles bonecos sempre-em-pé, só que neste caso é um sempre-deitado-no-chão. Tenho de chamar a minha filha para me ajudar. Ainda bem que já veio das aulas. Confesso que me enervei, mais por não a conseguir agarrar em lado nenhum e por ela teimar em se deitar para o chão. Finalmente, os dois, lá conseguimos pô-la de pé. Já começou a reagir e levamo-la para a cama. Penso duas vezes se vale a pena tê-la na sala comigo, enquanto arrumo os estragos que ela deixou para trás... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 20:39
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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005

Discussão a zero.

   Que paciência!...
   Se há coisa que não costumo fazer é manter uma discussão. De certeza que não leva a lado nenhum. Já dizia a minha Avó, não há um teimoso sem outro teimoso. Decidi há muito tempo que se não consigo convencer alguém ao fim de duas ou três frases, então é porque ou estou errado, ou essa pessoa não quer ser convencida, pelo que não vale a pena continuar o debate.


   Por mais que tente, não consigo evitar o facto. A minha mulher parece que nasceu com um único objectivo na sua vida: enervar-me. Pode começar pela coisa mais insignificante, mas acaba por me dar cabo da paciência, da pouca que ainda me resta.
   Hoje também não foi excepção. Ando às voltas com os papeis para o IRS. Soma daqui, junta dali, procura nesta pasta e naquela. O mínimo que quero é um bocado de sossego, mas está-me negado não sei por que maldição.
   Às vezes comparo-a aqueles cãezitos tipo movidos a pilhas. Podem servir mais para ter em cima de uma prateleira do que para outra coisa qualquer, mas o que é um facto, é que quanto mais pequenos, mais barulho fazem e mais chatos se tornam. Não raro, os vejo a ladrar aos maiores como se fossem os donos do mundo, quando na realidade basta uma boa dentada para os meter no lugar, mas nem isso os sossega. Se ouvem uma rosnadela maior, então é que não se calam, e ladram, ladram, andam à volta do outro, talvez protegidos por uma certa cumplicidade dos donos que lhes acham muita graça. Então quando desatam a correr atrás das nossas calças, tentando mordê-las? Pior ainda. A vontade é dar-lhes um daqueles pontapés que os ponha a milhas, mas sempre reprimida, quer seja por causa do dono que está a ver com um sorriso estúpido na cara, ou para não magoar o bicho, que afinal até é capaz de não ter culpa nenhuma. O que é certo é que a minha mulher tem esse condão. Agarra numa porcaria qualquer e fala, fala, fala, e mesmo que não tenha razão nenhuma, continua a bater na mesma tecla. Nem vale a pena tentar mostrar-lhe que as coisas não são assim, que nessas alturas parece bloqueada, quanto mais vê que está a aborrecer menos se cala, até que estraga tudo.
   Hoje não tive vontade para a aturar. Fui ao quarto, tirei camisa e gravata, vesti umas calças de ganga e calcei as botas de montanha. Não dava para ir até à Arrábida ou Sintra, mas uma hora em passo acelerado ao longo da Marginal acalmou-me... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 18:03
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2005

As joelheiras.

   Que paciência!...
   Se não tens cão, caças com gato. Se não consegues resolver um problema, pelo menos tenta minimizá-lo.


   As coisas estão a ir de mal a pior. A minha mulher continua com os mesmos problemas. Já caiu por várias vezes. Mal se aguenta em pé. Na brincadeira, começo a pensar seriamente em lhe colocar na cabeça um dos meus capacetes de BTT. Se cai e bate com a cabeça em algum sítio é um problema de certeza. Mais um a somar aos muitos que já tenho. Com o máximo de franqueza, não sei a que se deve isto. Acho que nem os médicos sabem. Nem tão pouco sei se é um problema físico ou se já ultrapassa esse campo. Li em tempos um artigo que afirmava que o desejo de certas pessoas em se tornar doentes como forma de se lhes prestar atenção ou de se colocarem contra o mundo, pode na realidade criar os sintomas de doença, sem que o corpo tenha necessariamente de estar contaminado. Lembro-me perfeitamente que a minha filha mais velha, teve uma repulsa idêntica em relação ao colégio onde andava. Não nos apresentava qualquer justificação, só não queria ir para lá. Não se tinha zangado com as professoras, não havia problemas com os colegas, as empregadas tratavam-na bem, não havia razão nenhuma, pelo menos que nos contasse. E todos os dias ia para o colégio de má vontade, até que de repente, ficou com uma temperatura altíssima. Levámo-la ao médico. Nada. No dia seguinte a mesma coisa. Escaldava. Faltou à escola outra vez. E foram-se passando os dias. De manhã febre, o resto do dia normal. Mudei-a de colégio. Nunca mais teve febre. Enfim, vá-se lá perceber se foi coincidência.
   Ouvi-a cair de novo. Foi na cozinha. Está deitada no chão sem dar acordo de si. Tento levantá-la novamente. Não sei se faço bem ou mal, mas é a única forma de começar a reagir. Doem-lhe os joelhos de tantas quedas. Levanto-lhe as calças. Estão pisados. Uma autêntica nódoa negra ocupa a zona das rótulas. Devia ter notado isto há mais tempo, mas ela já não usa saias e também já não lhe olho muito para as pernas. Lembrei-me do capacete para a cabeça. Há pelo menos algo que posso fazer para a ajudar. Em tempos joguei andebol e usava umas protecções almofadadas para os joelhos. Será que ainda existe algo desse género? Vou ao Continente. Nada, nem na Sport Zone. Talvez no Fórum.
   Ao princípio achou graça, mas deu resultado. Talvez uma coisa tão simples possa ajudar a resolver, ou pelo menos minimizar as consequências de um problema mais grave... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 20:51
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Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

Professores como antigamente.

   Que paciência!...
   Se há imagem que ainda guardo com carinho, é o de algumas pessoas da minha infância. A D. Almerinda, a minha professora da instrução primária, a Menina Bia, a empregada do colégio e os Senhores Directores, um casal simpático de quem nunca soube o nome. Durante anos e anos, viram-me crescer, casar, ter filhos. A eles, fui-os vendo morrer. A última vez que vi a minha professora,estava com uma enfermeira que a acompanhava. Já não me reconheceu, mas ficou feliz de a ter ido cumprimentar. Falámos de algumas peripécias que fiz. Disso lembrava-se bem.


   __ Paiiiiiiii! __ O grito veio do quarto dos miúdos. Quem é que já matou quem? Não tinha ouvido briga nenhuma entre eles. Vamos lá a ver o que se está a passar. Estava o meu filho de telemóvel ao ouvido.
   __ É o Tiago a saber se pode ir comigo ao Campeonato de Xadrez. __ Claro que posso levar o miúdo. __ Então o meu Pai vai aí depois buscar-te.
   __ Eh lá! Nem penses nisso. Ele que venha cá ter até às das horas. __ Lembrei-me logo da última vez que o levei. Fiquei quase meia hora à porta do restaurante à espera que ele acabasse de comer! Nem buzinando ele se despachava. Não me faltou vontade de arrancar e deixá-lo lá ficar. Valeu-lhe o meu miúdo que foi lá para o pé dele.
   Duas horas. Nada de Tiago. Se calhar ficou aborrecido por eu não o ir buscar a casa. Que se lixe. O pai dele também tem carro.
   __ Vamos embora, Rafael. Sabes onde é o clube? __ Era para os lados do Seixal. Foi o que o professor lhe tinha dito. __ Só isso? Como é que raio queres que eu descubra onde fica? O Seixal ainda é grande! Pode ser que alguém conheça. Vou perguntando pelo caminho. Ninguém conhece nenhum Águias Unidas no Seixal. Está quase a começar o torneio e nada de saber onde é o clube. Telemóvel do professor? Ele não tem. Pois, estou mesmo a ver. Vou ao Timbre. Também é um clube de bairro. Pode ser que conheçam o outro. A resposta desespera-me.
   __ Aqui no Seixal, não. Só o Democrático. __ Estou já a amaldiçoar todas as peças do jogo de xadrez, a começar pelos reis e rainhas. Vejo a tristeza a começar a ganhar terreno nos olhos do garoto. Alguém disse do fundo da sala, onde se jogava dominó:
   __ Tóino! Há um Águias nos Foros, ou Fanqueiro. É como quem vai para Belverde. __ Exactamente na direcção oposta. Vamos lá a queimar algumas regras de transito.
   Chegados ao Fanqueiro, lá descobrimos o clube. Entramos. Nada, a não ser dominó e bisca pelas mesas. Um indivíduo que estava ao balcão a tomar um café pergunta:
   __ É para o xadrez? Naquela sala lá dentro! __ Agradeço. À boa moda portuguesa, ainda não tinham começado. Faltavam mais de metade dos participantes. Pudera, deviam andar como eu às voltas pelo Seixal. Digo ao miúdo:
   __ Rafael, não é melhor procurares o teu professor para lhe dizer que chegaste?
   __ Então o Pai já esteve a falar com ele! __ Tinha sido o indivíduo do balcão com a bica. Nem cumprimentou o jogador, nem se apresentou, nada! Já não há professores como antigamente... É preciso paciência.
publicado por vkthor às 23:02
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